Transição Capilar: diferenças entre 2014 e 2017

     Hoje em dia, muitas pessoas passam pela transição capilar. Se chegarmos na maioria dos lugares e falarmos que estamos em transição saberão do que se trata ou terão alguma idéia. Internet, mídias sociais, revistas, televisão: todos falam sobre o assunto. A ponto de acharem que é apenas uma moda. Felizmente não é. Muit@s de nós optamos passar pelo processo para assumirmos uma identidade que por décadas nos foi roubada. Outr@s querem descobrir-se “apenas”, ver-se realmente. Há também quem apenas queira curtir o momento e não vejo nada de errado nisso. Cada um com seu motivo.

     Ah, mas nem sempre foi assim e a intenção deste post é fazer esse contraponto. Não para dizer o quanto era ruim e hoje é bom. Mas para mostrar a evolução que, graças a Deus, conquistamos.

 

2014 x 2017

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     Quando comecei minha transição capilar em 2014, já tínhamos grupos imensos dedicados à isso, mas ainda era um termo desconhecido para a maioria que não participava deles. Era muito comum as pessoas acharem que o termo referia-se à mudança de uma química para outra porque, até então, era assim mesmo que acontecia. Ninguém entendia a razão de parar de fazer esses tipos de procedimentos e a nossa justificativa raramente era entendida. Falávamos cinco justificativas em vez de resumir com um simples “porque quero”.

     Atualmente, as coisas mudaram bastante. Amém. A transição capilar visando a retirada total da química já é tema de matérias em jornais, revistas e mil blogs e canais no YouTube surgiram para falar dela. Ainda sofre-se a pressão para voltar ao alisamento? Sim, mas não poderia ser muito diferente. Foram anos com a cultura do liso ser o “bonito” e o “arrumado” que não sumiria de um dia para o outro. Mas é possível vermos um maior entendimento das pessoas.

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    Outro ponto que ainda estava engatinhando eram as formas de uso desse cabelo com duas texturas. Já existiam várias formas de texturização, penteados, etc. EU optei por não fazer nada disso por falta de paciência mesmo. Passei 1 ano com o cabelo preso e me sentindo “O” patinho feio.

     Em pleno 2017 vejo uma mudança fundamental neste quesito: passamos a ver pessoas que não recorrem a nenhum tipo de texturização, penteados, nem andam de cabelos presos. Elas cortam os fios para que fiquem com o comprimento médio ou curto, mas assumem as pontas “feiosas” e ainda com química. Vejo isso e sinto tanto orgulho. Percebo que olho com mais condenscendencia para moças que encontro nas ruas do que olhava anos atrás. O cabelo está o mais lindo do mundo? Nem sempre, mas elas estão tão seguras e determinadas com o que querem que todo o restante se torna menor e coloca nossos (possíveis) olhos condenatórios em nossos lugares. Me sinto, sim, como parte desse processo. Se chegamos a esse nível de emponderamento e confiança é porque tantas de nós sofremos para que chegássemos no atual patamar.

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     A diversidade de produtos de cabelo são outra revolução que passamos nos últimos 3 anos. Quando comprei os primeiros produtos para cuidar dos fios durante a transição, não tínhamos tantas opções acessíveis para as cacheadas. Imaginem quando comecei no Low Poo… Era uma luta sem fim para achar algo liberado. Tudo era na base da adaptação, pois a maioria não destinada para nós. As máscaras da Kanechom e da Griffus eram verdadeiros achados. Tanto no quesito preço, quanto por serem liberadas e básicas.

     Passados esses anos, temos grandes marcas – algumas impensáveis – produzindo produtos para cabelos cacheados E liberados para as técnicas do No e Low Poo. É quase um sonho. Fora que aliaram bons produtos à preços justos.

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     Mas a maior transformação é ver as cacheadas nas ruas e na mídia ocupando o lugar que lhes é devido. Há 3 anos, a progressiva ainda era lei. Cacheadas só as quimicadas e dificilmente encontrávamos as naturais. Não sei se reparo mais, mas o fato é que em qualquer lugar que vou sempre tem várias cacheadas (quimicadas e naturais) – usar química não tem problema algum, mas o tema do post é a diferença entre transição capilar de 2014 e 2017, lembram? – e isso me enche de orgulho sempre.

     Preciso dizer que hoje em dia me sinto muito mais feliz nos ambientes que transito. Quando entrei na graduação de História, éramos pouquíssimos negros em sala de aula, mas estávamos em 2011/2012. Cacheadas realmente nem pensar (ainda me achava cacheada, mas de tanta química já não tinha mais tantos cachos). Agora, as salas são cheias de moças e rapazes cacheados. Isso me enche de alegria. Espero que tenham a mesma percepção.

♥♥♥

     É, menin@s, caminhamos muito de 2014 para cá. Poderia continuar elencando milhares de diferenças. Muita coisa mudou, melhorou e conquistamos um mundo de coisas. O que é difícil é mudar e aprender a lidar com a nossa autoestima. O fato de assumirem melhor e mais facilmente que estão na transição é um passo importantíssimo, mas o cotidiano, os olhares, as opiniões não pedidas podem ser verdadeiros testes de persistência.

     Como sempre disse e reforço em 2017: precisamos fortalecer nosso interior para encarar a ignorância alheia e a falta de compreensão. Espero que nos próximos anos novas barreiras sejam derrubadas e cada um tenha o cabelo do jeito que quiser: sem a ditadura do liso ou dos cachos. Também espero que meu trabalho seja um grãozinho de areia nesse mar de lutas que ainda temos pela frente.

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